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Maria Moura Joias

BLOG MARIA MOURA

Bem-vindas ao Blog da Maria Moura! Aqui você vai encontrar dicas de cuidados com suas joias, novidades sobre nossas peças e conhecer um pouco mais cada detalhe do nosso universo.

Relicário: como colocar a foto e o que mais cabe dentro

Relicário é a joia que abre. Por dentro vai uma foto, e é aí que começam as dúvidas: em que tamanho recortar, como fixar sem estragar a peça e o que mais cabe ali dentro.

No ano passado minha sogra me pediu um relicário. O filho mais velho dela ia se casar, e ela queria que ele levasse o pai junto naquele dia. De um lado do relicário, o rosto. Do outro, uma frase de Santo Agostinho. Um detalhe pequeno na lapela, e o único que importava.

No nosso Instagram “De um lado, o rosto que guarda a saudade. Do outro, o conforto das palavras de Santo Agostinho. Um detalhe discreto na lapela, mas gigante no significado.” Ver o post completo ou seguir @mariamourajoias
Relicário oval de prata aberto sobre papel kraft, mostrando duas fotografias antigas no interior, ao lado de rosas claras
O relicário é a única joia cujo valor está no que ela esconde. Na foto, o Relicário Vintage.

Este guia é sobre a parte prática que quase ninguém explica: como colocar a foto sem estragar a peça, o que mais cabe lá dentro, por que ele começa a abrir sozinho depois de um tempo e o que fazer com aquele relicário da avó que não abre mais.

O essencial, em três linhas

A medida certa da foto é o disco transparente que já vem dentro da sua peça. Ele sai com a ponta de um alfinete e serve de molde. Recortar um milímetro a mais é o que trava a tampa.

Nunca plastifique a foto e nunca mergulhe o relicário em líquido de limpeza. Os dois danos são permanentes.

Relicário não é objeto de luto. Ele nasceu religioso, virou joia de noivado e de amizade muito antes de virar joia de saudade.

Se preferir resolver conversando, a gente atende no WhatsApp da loja e pode ver a sua peça com você.

O que é um relicário

Relicário é a joia que abre e guarda alguma coisa dentro. Em geral uma foto, às vezes uma mecha de cabelo, um pedacinho de papel com uma frase.

A palavra vem de relíquia, e a raiz latina, reliquiae, quer dizer literalmente “restos, o que sobrou”. O objeto nasceu religioso: era o recipiente que guardava e exibia fragmentos de santos. Vale registrar uma honestidade que quase nenhum texto de joalheria faz: os dicionários de português ainda não trazem a acepção de “pingente que guarda foto”. O Michaelis lista quatro sentidos, e o mais próximo do nosso é “caixa de lembranças ou recordações”. O uso que a gente faz hoje foi emprestado do sagrado pelo afeto, e consagrado pelo comércio.

Em inglês ele se chama outra coisa

Se você for procurar em inglês, procure por locket. A palavra vem do francês antigo loquet, que quer dizer trinco, e não tem nenhum parentesco com relíquia. Reliquary, em inglês, é só o recipiente de relíquia de santo. São duas metáforas diferentes para a mesma joia: em português ela é nomeada pelo que guarda, em inglês pelo fecho.

Nem todo relicário abre

Vale saber disso antes de comprar, porque são construções bem diferentes. Existe o relicário clássico, com duas conchas e dobradiça, que abre e permite trocar o conteúdo. E existe a peça em que a foto fica visível na frente, protegida por um vidro fixo, com a gravação atrás. Essa segunda não abre, e não precisa: a imagem já é o rosto da joia.

As duas são chamadas de relicário no comércio. A pergunta que resolve na hora da compra é simples: eu quero olhar a foto todo dia ou quero guardá-la?

Verso de pingente relicário redondo em ouro 18k, com a frase amar acima de tudo gravada a laser na borda e um pequeno coração
Este é do tipo que não abre: a foto fica na frente sob vidro, e o verso recebe gravação a laser. São 20 mm de diâmetro e quatro diamantes na moldura. Na foto, o Pingente Relicário em Ouro 18k.

Relicário não é só para luto

Vale dizer isso cedo, porque a associação automática afasta muita gente da peça.

O Victoria and Albert Museum é explícito ao tratar da joia antiga com cabelo dentro: “nem toda joia de cabelo estava associada à morte”. Muitas eram de amor, de amizade e de noivado. E no Brasil a documentação vai na mesma direção: um estudo sobre a coleção de quadros de cabelo da Fundação Instituto Feminino da Bahia registra que, até a primeira metade do século XIX, boa parte dessas peças por aqui era de noivado.

Hoje o relicário aparece muito mais em nascimento, batizado, formatura, casamento e Dia das Mães do que em despedida. E aparece também para quem está bem vivo: o filho, o neto, o cachorro, os dois juntos numa foto de dez anos atrás. É a joia que mais se aproxima da ideia de joia como diário pessoal.

Como colocar a foto no relicário, passo a passo

Esta é a parte que quase nunca é explicada, e que o comprador descobre sozinho em casa, geralmente estragando a primeira tentativa.

Antes de começar: você não precisa fazer isso sozinha

Em alguns dos nossos modelos a impressão e a aplicação da foto já vêm inclusas: você manda a imagem, a gente imprime no formato exato da peça e aplica aqui. É o caso do Pingente Relicário em Ouro 18k e do Relicário Aberto com Vidro, em que a imagem ainda é protegida por um vidro resistente a queda. O passo a passo abaixo é para quem tem uma peça de outra origem, herdada, ou quer trocar a foto depois.

Passo 1: encontre o disco transparente

A maioria dos relicários atuais tem, dentro de cada compartimento, um disco transparente fino que sai por pressão, e às vezes um papelzinho embaixo dele. Ele não está colado: sai com a ponta de um alfinete, levantando pela borda com cuidado.

Esse disco é a peça mais útil da operação, porque ele é o gabarito exato da janela interna da sua peça.

Passo 2: use o disco como molde, não a régua

Não existe medida padrão de foto de relicário. Cada modelo tem uma janela própria, sempre menor que o tamanho externo da peça, porque o aro e a dobradiça comem espaço. Medir com régua por dentro do relicário fechado é como acertar no escuro.

Apoie o disco sobre a foto impressa, contorne com lápis leve e recorte por dentro do traço. Se o compartimento tiver pinos ou reentrâncias, respeite: é justamente ali que a foto grande demais encosta e impede a tampa de fechar.

O erro que trava a tampa

Foto um milímetro maior que a janela é a causa número um de relicário que não fecha. E aqui vai a regra que salva a peça: se houver qualquer resistência ao fechar, não force. Abra, tire a foto e apare mais. Forçar a tampa desregula a trava, e o conserto disso é bem mais caro que recortar de novo.

Passo 3: escolha o papel certo

Aqui há uma inversão que surpreende: papel fotográfico brilhante é a pior escolha para relicário. A superfície lisa, somada à umidade, favorece o que a conservação chama de aderência: a camada da imagem amolece e cola no vidro ou no acrílico, e ao separar você arranca pedaços da foto.

Opção de impressãoComo se comporta dentro do relicário
Laser preto e brancoA mais estável das opções domésticas. O toner é carbono em resina
Jato de tinta pigmentadaResiste bem à água e à luz, mas risca com mais facilidade nas áreas escuras
Jato de tinta coranteUma única gota de água espalha e borra a imagem
Papel fotográfico brilhanteO mais sujeito a grudar no vidro. Evite

Vale também uma correção sobre um argumento de venda comum. Aquele “papel que dura 100 anos” impresso na caixa mede resistência à luz, em condição de quadro na parede. Dentro de um relicário fechado, junto ao corpo, quem manda é a umidade, e o número da caixa não fala dela.

Passo 4: imprima pequeno com capricho

Como a imagem é minúscula, vale imprimir no dobro da resolução que se usa normalmente, e ir leve na nitidez. Um truque de quem faz isso com frequência: monte uma folha 10 por 15 com a mesma foto repetida em cinco tamanhos, de 90% a 110%, e recorte a que encaixar. Laboratório costuma imprimir um ou dois por cento maior do que o arquivo pede.

Passo 5: use cópia, nunca o original

O ambiente de uma joia usada no corpo é hostil ao papel. A recomendação de conservação para material fotográfico é umidade relativa entre 30% e 50%, e nunca acima de 60%. O interior de um relicário no pescoço, num clima como o de Maceió, passa disso com facilidade.

Guarde o original e ponha a cópia na peça. Se a foto que você tem é única e antiga, digitalize antes de mais nada.

O que NÃO fazer com a foto

Não plastifique. A laminação a quente é classificada pela conservação como destrutiva e irreversível: funde plástico na imagem e não tem volta. E ainda soma espessura, impedindo a tampa de fechar.

Não use papel sulfite comum. Papel de polpa de madeira libera compostos de enxofre e vapores ácidos dentro de uma peça de metal fechada. Se a peça for de prata, isso é combustível para escurecer.

Não improvise proteção com filme plástico de cozinha. Alguns filmes se degradam liberando gás que ataca metal.

Se você não tem certeza de qual papel usar ou quer que a gente imprima e recorte junto com você, chama no WhatsApp.

Se a foto já grudou no vidro

Não tente descolar em casa. Quando a umidade amolece a camada da imagem, ela adere ao vidro com força, e puxar não solta: arranca. Leve a peça a quem trabalhe com joia, e se a foto for insubstituível, procure um conservador de fotografia antes de qualquer tentativa.

Dois relicários ovais dourados sobre papel, um deles aberto mostrando duas fotografias pequenas no interior
Dois compartimentos, duas fotos. Repare como a janela útil é bem menor que a peça vista de fora. Na foto, o Relicário Letra.

O que cabe dentro (e o que estraga a peça)

Foto é o conteúdo mais comum, mas está longe de ser o único.

Mecha de cabelo

É mais antigo do que quase todo mundo imagina. O Metropolitan Museum tem catalogado um relicário com cabelo dentro feito em Boston em 1706, ou seja, mais de cem anos antes de a rainha Vitória subir ao trono e popularizar a joia de luto.

E o medo mais comum não se confirma: cabelo não apodrece. A queratina é quimicamente resistente a água, solventes, ácidos, álcalis e enzimas. O risco real é outro, e é bem concreto: inseto. Material de queratina é alvo preferido de traça de roupa e besouro de tapete. Por isso a mecha vai fechada dentro da peça, e a peça guardada em recipiente fechado, longe de lã e feltro.

Um detalhe estético: cabelo escuro clareia com luz. É mais um motivo para o relicário viver fechado.

Cinzas: um caso à parte

Aqui é preciso ser direto, porque a diferença é de projeto e não de gosto. Um relicário comum não foi feito para guardar cinzas. Ele fecha por dobradiça e aro, uma construção pensada para abrir e fechar muitas vezes, e não veda.

As joias feitas para cinzas são outra categoria: fecham por uma porta com rosca, às vezes com vedação, e cabem quantidades muito pequenas, da ordem de uma pitada. Para dar dimensão: uma cremação de adulto produz em média cerca de 2,4 quilos de cinzas.

E a lei brasileira sobre isso?

Procuramos e não encontramos norma brasileira que proíba nem que regulamente guardar cinzas em joia. O que a lei regula é a cremação em si, e não o destino das cinzas.

O único texto legal que menciona cinzas literalmente é o Código Penal, artigo 212, e ele existe para protegê-las: pune quem vilipendiar cadáver ou suas cinzas.

A Anvisa, na norma que trata do translado de restos mortais, exclui expressamente as cinzas do controle sanitário.

O que não entra

  • Nada líquido e nada úmido. Metal corrói mais rápido com umidade, e a faixa segura para guardar metal fica entre 35% e 55% de umidade relativa.
  • Perfume, óleo e creme. Nem dentro, nem por perto na hora de fechar.
  • Borracha e elástico. São fonte documentada de gás sulfuroso, que é exatamente o que enegrece a prata.
  • Lã e feltro. Mesmo motivo, e ainda atraem traça. A gente detalhou isso no guia de armazenamento de joias.
  • Papel comum de escritório. Libera enxofre e vapores ácidos.

Por que o relicário abre sozinho

Esta é a reclamação mais frequente sobre a peça, e o diagnóstico de balcão quase sempre erra o culpado.

O relicário não fica fechado pela dobradiça. Ele fica fechado por uma trava. Uma patente de 1938 descreve o mecanismo com clareza: há um pequeno lábio na borda da tampa, propositalmente engrossado, que engata numa lingueta. É essa borda que vai sendo achatada a cada abertura, e quando ela cede, a tampa deixa de segurar.

A dobradiça gasta faz outra coisa: dá folga e balanço lateral. As duas peças são diferentes e as duas têm conserto, mas o serviço não é o mesmo.

Se o seu relicário já está abrindo sozinho, manda uma foto pelo WhatsApp que a gente diz se é caso de trava ou de dobradiça.

Como a dobradiça é feita, e por que ela folga

Ela é montada com pequenos nós cortados de tubo, soldados alternadamente nas duas metades da peça, com um pino passado por dentro. É a única parte de uma joia com movimento relativo, e por isso ela nasce apertada de propósito: o ourives que monta já sabe que vai afrouxar.

Folga na articulação de um relicário antigo não é defeito de fabricação. É desgaste esperado, do mesmo jeito que a sola do sapato.

Uma coisa que nunca se deve fazer

Soldar o pino da dobradiça para “ele não sair mais” resolve por um tempo e depois piora tudo. A solda recoze o metal do pino, ele amolece e quebra pela torção. E, pior, uma dobradiça com pino soldado deixa de ser consertável no futuro. O pino certo entra forçado e sai com uma pancada precisa, sem maçarico.

Banhado, prata ou ouro: como escolher

Num relicário, essa escolha tem um critério que não vale para outras joias: com que frequência você vai abrir a peça.

O motivo é a espessura do acabamento. Um banho decorativo de joalheria fica entre 0,5 e 5 mícrons, ou seja, milésimos de milímetro. E ele não cobre igual: fica mais espesso nas arestas vivas e mais fino em recessos e áreas escondidas. A parte interna de uma articulação é exatamente uma área escondida, e é onde há metal roçando em metal.

Se vocêA escolha que faz sentidoNa nossa coleção
Vai abrir de vez em quando, e quer entrar no assuntoPeça banhada. É a faixa acessívelde R$ 410
Vai usar no dia a dia e abrir com frequênciaPrata 925, que é metal maciço por inteiroR$ 619 a R$ 690
Quer uma peça para atravessar geraçõesOuro 18k maciçoR$ 4.900

Uma observação de honestidade sobre nomenclatura, já que ela aparece em ficha de produto no Brasil inteiro: peça de metal comum com banho é chamada de “semijoia” pelo comércio, mas essa palavra não existe na lei brasileira. Quem quiser o detalhe legal, a gente destrinchou isso no guia sobre prata 925. Para a sua decisão aqui, o que importa é mais simples: o banho é uma camada fina sobre outro metal, e ele desgasta primeiro onde a peça atrita.

Vale ainda um detalhe que passa despercebido: relicário é pesado para o tamanho, porque são duas conchas, dois aros e uma dobradiça. Corrente fina demais arrebenta no fecho. Combine o peso da tampa com a corrente na hora da compra.

Relicário oval de prata 925 usado no pescoço, com corrente de pedras cravejadas
Relicário oval em prata 925, o meio de campo entre a peça de entrada e o ouro maciço. Na foto, o Relicário Oval.

Herdei um relicário e ele não abre

Acontece muito, e quase sempre tem solução.

As causas mais comuns são três: sujeira e oxidação acumuladas na junta, trava levemente empenada por uma queda antiga, ou dobradiça travada por resíduo. Nenhuma delas exige força.

O que não fazer

Não tente abrir com faca, chave de fenda ou a unha fazendo alavanca. O aro de um relicário é fino e entorta com muito pouco, e aí o estrago passa a ser permanente: a tampa nunca mais assenta. Se não abre com a pressão leve do polegar na borda, pare.

Três perguntas ajudam a saber o que você tem em mãos antes de procurar alguém:

  • Tem marcação? Procure 925, 750 ou 800 na borda ou perto da argola. Isso separa peça maciça de peça banhada e muda o que se pode fazer com calor.
  • A juntura está escura? Escurecimento concentrado na dobradiça costuma ser só sulfeto acumulado, e sai.
  • Tem alguma coisa dentro? Se você ouve algo se mexendo, avise antes. Conteúdo muda o procedimento inteiro.

E um aviso importante para peça antiga: se dentro houver uma imagem em estojo do tipo daguerreótipo, a orientação de museu é não desmontar. O dano nesse tipo de imagem é irreparável.

Se a peça herdada for de ouro e não tiver mais conserto que compense, ela ainda pode virar outra coisa: é disso que trata o nosso serviço de renovação de joias, em que o metal antigo vira peça nova.

Traga a peça para a gente olhar, ou manda uma foto pelo WhatsApp antes só para ter uma ideia. Conserto de dobradiça e de trava a gente faz na bancada aqui do ateliê.

Relicário de noiva: buquê e terço

Existem duas montagens tradicionais, e as duas resolvem a mesma coisa: levar ao altar quem não pôde estar lá.

No buquê. O relicário é preso à haste ou à fita, virado para dentro, discreto. Fica visível só para quem chega perto, e a noiva o encontra quando olha para baixo.

No terço. Aqui ele integra a peça, e depois do casamento continua sendo um objeto de uso, e não uma lembrança guardada numa gaveta. Se a peça for religiosa, vale ler também o nosso guia sobre a medalha de São Bento, que trata do mesmo tipo de objeto de devoção.

Relicário oval dourado preso com fita de cetim a um buquê de noiva de flores brancas
Preso ao buquê pela fita, virado para dentro. É a montagem mais usada em casamento. Na foto, o Relicário Aberto com Vidro.

Uma pergunta que aparece sempre: e depois do casamento? A resposta prática é que o relicário de buquê vira pingente com uma argola, e o terço volta a ser terço. Nenhum dos dois precisa virar relíquia de caixa.

Se você está montando o seu casamento e quer combinar a peça com o buquê ou com o vestido, fala com a gente pelo WhatsApp com antecedência, porque personalização tem prazo.

Relicário masculino

O imaginário do tema é feminino, e a história não é. Relicário de uso pessoal em ouro, pendurado ao pescoço, está catalogado em museu desde o século XII, e boa parte da joia de memória do século XIX era usada por homens.

Na prática, três coisas mudam:

  • Formato. Redondo e oval liso funcionam melhor que coração. Acabamento fosco ou escovado em vez de polido espelhado.
  • Corrente. Mais longa, para a peça ficar sob a camisa, e de elo mais grosso, para aguentar o peso da tampa.
  • Onde se usa. Nem sempre no pescoço. O caso que abre este guia é um relicário de lapela, usado no dia do casamento.

De onde vem o relicário

A linha do tempo é mais longa e mais interessante do que o senso comum sugere.

QuandoO que já existia
Século XIIRelicário-pendente de uso pessoal. O Metropolitan tem um de Canterbury, feito entre 1174 e 1177, em ouro, guardando sob cristal fragmentos ligados a Thomas Becket
Por volta de 1600A joia que abre e revela um retrato já está firmada. O Heneage Jewel, no Victoria and Albert Museum, abre e mostra uma miniatura de Elizabeth I
1706Relicário com mecha de cabelo dentro, feito em Boston, hoje no Metropolitan
A partir de 1760O Victoria and Albert data daí a moda específica do relicário memorial
1840A pulseira de relicários da rainha Vitória, com nove deles, presente ligado ao nascimento dos filhos. Vinte e um anos antes da morte de Alberto
Por volta de 1861O relicário de luto de Vitória por Alberto, que guarda cabelo de um lado e fotografia do outro, ao mesmo tempo

Duas correções que essa linha do tempo entrega. A primeira: a rainha Vitória não inventou a joia de luto, que o Victoria and Albert remonta até a Roma antiga. Ela deu escala. A segunda: os blogs costumam dizer que a pulseira dela tinha oito relicários; o registro da coleção real diz nove.

E no Brasil

Há documentação acadêmica sobre isso, a partir da coleção de quadros de cabelo da Fundação Instituto Feminino da Bahia. O hábito veio da Europa e se espalhou aqui sobretudo depois da proibição dos enterros dentro das igrejas, que afastou os mortos das cidades.

E há um detalhe que vale contar. Havia no centro do Rio de Janeiro, no século XIX, uma artesã que se anunciava como trançadeira de cabelo, e que fazia o trabalho na frente do cliente justamente para provar que aquele cabelo era o dele. Do outro lado do Atlântico, os catálogos ingleses ofereciam a mesma coisa por escrito. Dois continentes, a mesma desconfiança: a pessoa precisava saber que era mesmo a mecha certa.

Relicário oval dourado com fotografia visível na frente, protegida por vidro, sobre tecido claro
A janela transparente sobre o que a peça guarda é o elemento mais antigo do objeto: o relicário do século XII que está no Metropolitan já tinha um cristal por cima do que havia dentro. Na foto, o Relicário Aberto com Vidro.

Como limpar sem estragar

Existe uma regra de conservação que resolve quase tudo, e ela é específica para esse tipo de peça: joia com juntas soldadas ou partes ocas não pode ser limpa por imersão. Um relicário é as duas coisas ao mesmo tempo.

Nunca, em hipótese alguma

Líquido de limpeza de prata por imersão. O produto entra pelas frestas e pelos poros da solda, e depois é praticamente impossível tirar de dentro. Ele continua agindo lá dentro por tempo indeterminado.

Ultrassom. Some vibração a um conjunto que tem papel, foto ou cabelo dentro. E a água que entra na cavidade fica.

Deixar de molho. Pelo mesmo motivo. Relicário abre, então não conte com vedação.

O que fazer: passe um pano macio levemente umedecido em água com sabão neutro apenas do lado de fora, sem molhar as partes internas, e seque na hora. Do lado de dentro, com foto no lugar, a orientação de conservação é não tentar limpar: segure pelas bordas, com as mãos limpas e secas.

E uma advertência que vale para toda joia antiga: polir tem custo. Cada polimento leva junto uma camada do próprio metal. Em relicário herdado, com gravação ou monograma, polir demais apaga exatamente aquilo que faz a peça ser dela.

Se for fazer banho de ouro

O conteúdo sai antes, sem exceção. O banho é feito por imersão em vários líquidos com corrente elétrica, e não existe “dar uma renovada sem mexer na foto”. Se você quer refazer o banho de uma peça com foto dentro, tire a foto, guarde, e recoloque depois.

Onde encontrar relicário em Maceió

Nosso ateliê fica na Ponta Verde. Ali dá para abrir e fechar as peças na mão antes de decidir, sentir o peso da tampa, comparar o tamanho da janela interna e conversar sobre gravação. A gente também faz conserto de dobradiça e de trava, e relicário sob encomenda.

A coleção hoje:

Relicários em formato de coração cravejados de cristais, abertos, mostrando fotografias no interior
O formato coração é o mais pedido para presente, e o que tem a janela interna mais apertada. Na foto, o Relicário Coração Cravejado com Cristais.

Maria Moura Joias

Empresarial Record Office, Sala 427

R. Eng. Mário de Gusmão, 988, Ponta Verde, Maceió, Alagoas

Segunda a sexta das 9h às 18h. Sábado e domingo das 9h às 13h.

WhatsApp (82) 98113-1690

mariamourajoias@gmail.com

Para gravação e peça sob encomenda, fale com a gente com antecedência: personalização tem prazo, e é feita na peça, sem volta.

Uma palavra sobre luto, com cuidado

Boa parte de quem procura relicário está passando por uma perda, e é justo dizer o que se pode e o que não se pode prometer.

Existe literatura séria sobre manter um vínculo com quem morreu, e ela sustenta que esse vínculo pode conviver com seguir a vida. A mesma literatura faz a ressalva honesta: nem toda forma de vínculo ajuda, e isso varia de pessoa para pessoa.

Uma joia não é tratamento. Luto que incapacita tem nome e tem cuidado próprio: o Transtorno de Luto Prolongado entrou na classificação psiquiátrica em 2022. Se for o seu caso, procure ajuda profissional. O relicário é um objeto, e objetos ajudam do jeito que objetos ajudam.

Perguntas frequentes

O que é um relicário?

É a joia que abre e guarda alguma coisa dentro. Em geral uma foto, às vezes uma mecha de cabelo ou um pedaço de papel. A palavra vem de “relíquia”, e o objeto nasceu religioso: guardava fragmentos de santos. Com o tempo, a mesma ideia passou a guardar a lembrança de gente comum. Em inglês ele se chama locket, palavra que vem do francês antigo para “trinco”, e não tem parentesco com relíquia.

Como colocar a foto no relicário?

Use o disco transparente da própria peça como molde. Ele sai por pressão, com a ponta de um alfinete. Apoie o disco sobre a foto impressa, contorne com lápis, recorte por dentro do traço e devolva as peças na mesma ordem em que saíram. Recortar um milímetro a mais é a causa número um de tampa que não fecha. Em alguns modelos nossos a impressão e a aplicação já vêm inclusas: você manda a imagem e a gente faz.

Que tamanho de foto cabe no relicário?

Não existe medida padrão. Cada modelo tem uma janela interna própria, sempre menor que o tamanho externo da peça, porque o aro e a dobradiça ocupam espaço. Por isso a medida certa é a do disco transparente que já vem dentro do seu relicário, e não a de uma tabela genérica.

Que papel usar para imprimir a foto do relicário?

Evite papel fotográfico brilhante. Ele é o mais sujeito a grudar no vidro quando a umidade sobe. Papel fosco fino funciona melhor, e a impressão a laser em preto e branco é a mais estável das opções domésticas, porque o toner é carbono em resina. Impressora a jato com tinta corante borra com uma única gota de água.

Posso plastificar a foto do relicário?

Não. A laminação a quente é classificada pela conservação como destrutiva e irreversível: ela funde plástico na superfície da imagem e não tem volta. Além disso, o plástico soma espessura e a tampa deixa de fechar.

A foto do relicário desbota?

Dentro do relicário quem estraga a foto é a umidade, mais do que a luz. Aquele “dura 100 anos” impresso na caixa do papel mede exposição à luz em parede, e não guarda fechada junto ao corpo. Acima de mais ou menos 60% de umidade relativa, a camada da foto amolece e pode aderir ao vidro. Use sempre uma cópia, nunca o original.

Minha foto grudou no vidro do relicário. O que faço?

Não tente descolar em casa. Quando a umidade amolece a camada da imagem, ela adere ao vidro e puxar arranca pedaços da foto. Leve a peça a quem trabalhe com joia e, se a foto for insubstituível, procure um conservador de fotografia.

Pode guardar mecha de cabelo no relicário?

Pode, e isso é mais antigo do que parece. Existe relicário com cabelo dentro catalogado em museu desde 1706. O cabelo não apodrece: a queratina resiste a água, solventes, ácidos e álcalis. O risco real é outro, e é inseto: material de queratina atrai traça e besouro de tapete. Por isso a mecha vai fechada, e a peça guardada em recipiente fechado.

Dá para guardar cinzas de cremação num relicário?

Um relicário comum não foi feito para isso. A construção dele pressupõe abrir e fechar muitas vezes, e por isso não veda. As joias feitas para cinzas fecham por uma porta com rosca e, às vezes, com vedação. Se você quer levar cinzas, procure uma peça projetada para isso, em vez de adaptar um relicário.

Guardar cinzas em joia é permitido no Brasil?

Não encontramos norma brasileira que proíba nem que regulamente. A lei trata da cremação em si, e não do destino das cinzas. O Código Penal, no artigo 212, é o único texto que menciona cinzas, e existe para protegê-las: pune quem vilipendiar cadáver ou suas cinzas. A Anvisa, por sua vez, exclui expressamente o translado de cinzas do controle sanitário.

Por que meu relicário abre sozinho?

Quase sempre a culpa é da trava, não da dobradiça. O relicário fica fechado por um pequeno lábio que engata numa lingueta, e é essa borda que vai sendo achatada pelo uso. A dobradiça gasta dá folga e balanço, mas quem segura a tampa fechada é a trava. As duas coisas têm conserto.

Relicário estraga de tanto abrir?

A dobradiça folga com o tempo, e isso é esperado. Ela é a única parte da joia com movimento relativo, e nasce apertada justamente porque vai desgastar. Quem abre todo dia deve preferir peça de metal mais robusto e evitar apoiar o dedo no centro da tampa: abra e feche pela borda.

Posso limpar relicário com líquido de limpeza de prata?

Nunca por imersão. A regra da conservação é direta: peça com juntas soldadas ou seções ocas não pode ser mergulhada. O produto entra pelas frestas e pelos poros da solda e depois é praticamente impossível tirar de dentro, continuando a agir ali por tempo indeterminado. Limpe só por fora, com pano levemente úmido, e seque na hora.

Pode lavar relicário ou usar ultrassom?

Não, e menos ainda com foto dentro. O relicário abre, então não conte com vedação. A água entra na cavidade e não sai, e o ultrassom soma vibração num conjunto que tem papel, foto ou cabelo lá dentro.

Herdei um relicário e ele não abre. Tem conserto?

Na maioria das vezes tem. Costuma ser sujeira acumulada na junta, trava empenada ou dobradiça travada. O que você não deve fazer é forçar com faca ou chave de fenda, porque isso entorta o aro e o estrago passa a ser permanente. Leve a peça para alguém abrir com ferramenta certa.

Dá para fazer banho de ouro num relicário com a foto dentro?

Não. O banho é feito por imersão em vários líquidos, com corrente elétrica, e a peça vai submersa. Todo o conteúdo precisa sair antes: foto, papel e mecha não sobrevivem ao processo.

Relicário é joia de luto?

Não necessariamente, e nunca foi só isso. O Victoria and Albert Museum registra que boa parte da joia antiga com cabelo era de amor, amizade e noivado. No Brasil do século XIX, até a primeira metade do século, muitas dessas peças eram de noivado. Relicário se dá em nascimento, batizado, formatura e casamento com a mesma naturalidade.

Todo relicário abre?

Não. Existe o relicário clássico, de duas conchas e dobradiça, que abre e permite trocar a foto. E existe a peça em que a imagem fica visível na frente, sob vidro fixo, com gravação no verso. As duas são vendidas como relicário. A pergunta que resolve na compra é se você quer olhar a foto todo dia ou guardá-la.

Existe relicário masculino?

Existe, e sempre existiu. O que muda é a escolha: formato mais sóbrio, corrente mais longa e de elo mais grosso, e acabamento fosco ou escovado em vez de polido. O peso da tampa pede corrente compatível, que é a mesma regra para qualquer pessoa.

Dá para gravar no relicário?

Dá, e o lugar mais usado é a parte de dentro da tampa. Nome, data ou uma frase curta. Vale combinar a gravação antes de fechar a compra, porque ela é feita na peça e não tem volta. Fale com a gente pelo WhatsApp que a gente te diz o que cabe naquele modelo.

Quanto custa um relicário?

Na nossa coleção, de R$ 410 a R$ 4.900. A faixa de entrada é de peça em metal com banho de ouro, a intermediária é de prata 925, e o topo é ouro 18k maciço com diamantes na moldura. O que muda entre as faixas vai além do brilho: muda quanto tempo o acabamento resiste ao atrito de abrir e fechar.

Fontes

O que sustentaFonte
Etimologia de “relicário” e as acepções registradas em dicionárioMichaelis e Priberam
Origem de locket no francês antigo loquet (“trinco”)Online Etymology Dictionary
Relicário-pendente de Canterbury, 1174-77; relicário com cabelo de Boston, 1706Metropolitan Museum of Art
O Heneage Jewel (c. 1600), que abre e revela a miniatura de Elizabeth I; a moda do relicário memorial a partir de 1760; a joia de luto desde a Roma antiga; “nem toda joia de cabelo estava associada à morte”Victoria and Albert Museum
A pulseira de nove relicários de 1840 e o relicário de luto de c. 1861 com cabelo e fotografiaRoyal Collection Trust
O hábito de guardar cabelo no Brasil, as peças de noivado na primeira metade do século XIX e a trançadeira do centro do RioQUEIROZ, Marijara Souza. “Arte fúnebre no século XIX”, revista 19&20, v. V, n. 3, 2010
Limpeza de peça com juntas soldadas ou partes ocas; polimento que consome metal; umidade de 35% a 55% para guardar metal; borracha, lã e feltro como fonte de enxofreCanadian Conservation Institute, CCI Notes 9/7 e 9/2
Umidade recomendada para material fotográfico e o risco de a imagem aderir ao vidro; laminação como processo irreversível; queratina e o risco de infestação por insetoCanadian Conservation Institute, conservação preventiva
Construção do relicário: nós de dobradiça, pino, aro e a trava que mantém a tampa fechadaPatentes US2129491A (1938), US2545267A (1951) e US5586452A (1996), Google Patents
Joia de cinzas com fechamento por roscaPatente US7950117B2 (2011), Google Patents
Massa média de cinzas de uma cremação de adultoWARREN, M. W.; MAPLES, W. R. “The anthropometry of contemporary commercial cremation”, Journal of Forensic Sciences, 1997
Código Penal, artigo 212, e a exclusão das cinzas do controle sanitário de transladoDecreto-Lei 2.848/1940 e RDC Anvisa 662/2022
Vínculo continuado com quem morreu, e a ressalva de que nem toda forma ajudaKLASS, SILVERMAN e NICKMAN, Continuing Bonds, 1996; FIELD, GAO e PADERNA, Death Studies, 2005
Transtorno de Luto Prolongado na classificação psiquiátrica desde 2022American Psychiatric Association, DSM-5-TR

Juliana Pitta, ourives e fundadora da Maria Moura Joias, em retrato de estúdio
Juliana Pitta, ourives e fundadora da Maria Moura Joias.

Sou ourives desde 2018 e é da minha bancada que sai cada peça da Maria Moura. Escrevo estes guias a partir do que aparece aqui no ateliê todo dia. Se ficou dúvida sobre a sua joia, me chama no WhatsApp.

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Juliana Pitta

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